segunda-feira, 13 de junho de 2016

Como bancar a pós-graduação em tempo de crise

Fonte: REVISTA ÉPOCA

O valor da mensalidade de uma pós-graduação pode assustar até o mais entusiasmado dos candidatos. Em universidades reconhecidas, dificilmente um curso sairá por menos de R$ 20 mil, podendo chegar a até mais de R$ 100 mil. Em anos de crise econômica e desemprego, é raro encontrar quem consiga pagar esses valores do próprio bolso. Para manter o currículo atualizado, existem duas saídas: batalhar para conseguir uma bolsa de estudos ou buscar um financiamento para ajudar a custear o curso de pós-graduação.

(Foto: Anna Carolina Negri/ÉPOCA)
O engenheiro mecânico Davi Ursolino, de 33 anos, escolheu a segunda opção. Ele estava havia sete anos no mesmo cargo e queria uma promoção. A decisão de iniciar a pós-graduação em gestão de projetos na Fundação Getulio Vargas, em Campinas, veio no mesmo momento em que Davi tinha uma restrição em seu orçamento. “Me casei no ano passado e a maior parte da minha renda estava comprometida com a festa e a compra do apartamento”, diz. “Como não queria mais esperar para voltar a estudar, resolvi procurar crédito.” Davi optou por fazer o financiamento num banco parceiro da universidade. O empréstimo de R$ 23 mil deverá ser pago em 60 parcelas, mas Davi espera quitar a dívida antes do prazo. Antes mesmo de concluir o curso, o engenheiro conseguiu a promoção que queria.


Buscar a ajuda de bancos para custear cursos de pós-graduação é uma das opções para quem precisa de financiamento para estudar. “Existe uma procura constante por esse tipo de empréstimo, por isso criamos programas de crédito destinados exclusivamente a estudantes e buscamos parcerias com as universidades”, diz Antônio Diniz, diretor do Banco Bradesco. Além do Bradesco, bancos como Santander, Caixa e HSBC também oferecem programas de crédito para pós-­graduação (ler no quadro abaixo). 



(Arte: Alyne Tanin/ÉPOCA)
As taxas de juros cobradas por bancos para esse tipo de empréstimo ficam entre 2% e 3% ao mês. Elas costumam ser menores se a instituição de ensino tiver parceria com o banco ou se o candidato ao empréstimo já for cliente da instituição há bastante tempo. O prazo para pagar a dívida varia entre 24 e 48 meses.
O Pravaler, um programa de crédito universitário com 300 universidades parceiras, é outra opção para quem precisa de um financiamento. Para conseguir o empréstimo, é necessário comprovar uma renda mínima de 2,5 vezes o valor da mensalidade. A taxa de juros é menor que a cobrada por bancos, sendo que algumas faculdades conveniadas chegam a não cobrar juros do estudante. A desvantagem é que o crédito só é válido para as universidades parceiras do programa.
Fazer um empréstimo pode ser uma boa saída para conseguir bancar uma pós-graduação, mas é preciso ter cuidado para a dívida não virar um problema no orçamento. “Em primeiro lugar, é necessário avaliar se o curso de fato trará benefícios para a carreira”, diz Liao Yu Chieh, especialista em finanças do Insper. Para isso, é preciso que o aluno tenha um objetivo claro e definido de como o curso escolhido o ajudará a conseguir uma promoção ou um aumento de salário. O segundo passo é procurar qual instituição oferece a menor taxa de juros. E, por fim, fazer o menor número de parcelas possível. “Quanto antes a pessoa quitar o empréstimo, menos ela perderá com as taxas de juros”, diz Liao. Outra saída para tentar diminuir a dívida com os estudos é se organizar para dar uma quantia de entrada e financiar um valor menor.
Além da pesquisa cuidadosa na hora de escolher o curso e a instituição na qual o empréstimo será feito, é preciso também organizar as finanças pessoais para pagar a dívida com tranquilidade. “Estabelecer prioridades é fundamental”, diz o consultor financeiro Erasmo Vieira. “Não dá para trocar o carro, viajar, andar na moda e sair todo final de semana quando se tem uma dívida para pagar.” Por isso, antes de fazer o empréstimo é aconselhável analisar a própria renda e definir quais gastos podem ser reduzidos para quitar a dívida no menor tempo possível.
Para os que não querem encarar uma dívida, a saída é optar por uma bolsa de estudos. Foi o que fez o pedagogo Cleyton Garcia, de 23 anos. Ele conseguiu uma bolsa de 70% do valor da mensalidade num curso de pós-graduação em educação especial e inclusiva. “Os bancos têm juros altos, por isso preferi ir atrás de uma bolsa de estudos.” Cleyton termina a pós no final do ano e se prepara para disputar em concursos públicos uma vaga de professor de educação especial.
Cleyton Garcia conseguiu a bolsa de estudos no Educa Mais Brasil, um programa privado presente em todas as regiões do país em parceria com mais de 15 mil instituições de ensino. O valor máximo das bolsas concedidas pelo Educa Mais Brasil é de 70% do valor da mensalidade. Para ser contemplado, o aluno deve provar que não tem meios para pagar o valor integral da mensalidade.
As bolsas para os cursos de pós-graduação em formato stricto sensu, como mestrado e doutorado, são outra forma de conseguir qualificação e conhecimento sem ter de pagar caro por isso. Para conseguir esse tipo de bolsa, o candidato precisa, antes de qualquer coisa, ser aceito no mestrado ou no doutorado. Com a estagnação do mercado de trabalho, as vagas para esses cursos estão mais disputadas. “Quando o mercado de trabalho vai bem, chegam a sobrar vagas de mestrado e doutorado”, diz Eduardo Kokubun, pró-reitor de pós-graduação da Universidade Estadual Paulista. “Neste momento, em que a economia está retraída, a procura  é grande, por isso o candidato precisa estar ainda mais bem preparado.” Os processos seletivos variam de acordo com a universidade e a área na qual se pretende estudar, mas geralmente são compostos de provas de aptidões específicas e de proficiência em inglês, análise de currículo e entrevistas.
As provas específicas são diferentes para cada área. Para conseguir uma bolsa de mestrado em economia, por exemplo, o candidato precisa ter um bom desempenho no exame da Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia (Anpec). O exame da Anpec tem como objetivo avaliar a qualificação acadêmica dos candidatos ao mestrado. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Universidade de São Paulo e a Universidade Estadual de Campinas são instituições que usam o exame, composto de questões de matemática, estatística, economia brasileira e inglês.
Para os que buscam uma bolsa de mestrado na área de administração ou contabilidade, há uma prova semelhante, aplicada pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (Anpad). Assim como o exame da Anpec, ele é usado pelas universidades de negócios mais reconhecidas do país. A prova tem questões de raciocínio lógico, quantitativo e analítico, perguntas sobre inglês e português. Também é preciso ter atenção com a prova de inglês. Os testes costumam ser recheados de termos técnicos e, por isso, só dominar o idioma não basta. Traduzir artigos científicos da área pode ser uma boa maneira de se familiarizar com o vocabulário.
Ir bem nessas provas é importante, mas um bom currículo é a parte fundamental para ser aprovado e conseguir uma bolsa. “Ter artigos publicados em periódicos científicos e ter iniciação científica conta muitos pontos a favor do candidato”, diz Kokubun. Ter participado de congressos e estágios profissionais também causa boa impressão. Para a entrevista com os docentes, é bom estudar detalhadamente o próprio projeto e currículo e se preparar para perguntas sobre como conciliar o trabalho com os estudos. O esforço compensa. Em tempos de empregos escassos, a qualificação ainda é o melhor meio de garantir uma vaga no mercado de trabalho.

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